RIO - A Terra tremeu, rachou, congelou, esquentou e gerou ondas gigantes. Milhares de pessoas morreram e milhões perderam casa, saúde e sustento. Tudo em três meses. O começo de 2010 foi marcado por uma combinação de desastres ambientais. O Rio derreteu no calor de mais de 40 graus Celsius enquanto São Paulo enfrentou chuvas diluvianas. Na mesma época, a Europa se via paralisada por nevascas de fúria histórica. Some-se a isso dois terremotos devastadores no Haiti e no Chile (este seguido por tsunamis), e o planeta parece ensandecido. Na Antártica, um iceberg com metade do tamanho do Distrito Federal se rompeu, o que pode alterar as correntes marítimas.
- Esse é um ano de extremos - diz José Marengo, climatologista do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). - Precisamos agora saber que acontecimentos foram isolados e quais podem se tornar comuns no futuro.
A fornalha carioca e o dilúvio paulista
O anúncio foi feito antes do réveillon: 2010 será o mais quente dos últimos 130 anos. Na América do Sul, os termômetros seriam impulsionados pelo El Niño, cuja última ocorrência foi em 1998. O fenômeno climático não veio com tanta força, mas, ainda assim, o calor deste verão bateu recordes no Rio. Já em São Paulo, a estação foi marcada por chuvas constantes - o primeiro dia sem qualquer pingo d'água cair do céu veio só em fevereiro.
No primeiro bimestre, as temperaturas registradas no Rio foram maiores do que nos anos anteriores. A média da máxima, no mês passado, foi de 36,2 graus Celsius. Não se via um fevereiro tão quente desde 1984.
Quando o critério é a sensação térmica, uma classificação que envolve temperatura e umidade, fica claro que o tormento dos cariocas foi ainda pior. Em pelo menos duas ocasiões, este índice bateu os 50 graus. No dia 24 de fevereiro, mesmo com a sensação de "apenas" 42 graus, a cidade liderou este ranking mundial, empatada apenas com Akjoujt, na Mauritânia, localizada próximo ao Deserto do Saara.
- Com o El Niño, o prognóstico apontava uma tendência de que o Sudeste tivesse chuvas e temperaturas acima da média - explica o meteorologista Lúcio de Souza, do Inmet. - No Rio, alternamos dias de calor intenso com outros de precipitação constante.
O padrão normal da estação, no entanto, é outro: dias de sol, noites com pancadas de chuva. Uma anomalia impediu que o verão seguisse este fluxo por aqui. As massas de ar quente e úmido da Amazônia não influenciaram o estado, concentrando-se em São Paulo.
- Não houve umidade suficiente para formar as chuvas típicas da estação no Rio - explica o meteorologista. - Na verdade, os prognósticos para a nossa região têm um alto grau de incerteza, porque estamos entre o clima temperado do Sul e o equatorial amazônico. Se considerarmos todo o Sudeste, houve, sim, mais chuvas e temperaturas superiores à média. Mas essas características se manifestaram de forma desigual aqui dentro.
As precipitações ausentes nos veranicos cariocas chegaram com sobra em São Paulo. Foram 47 dias seguidos de chuvas na região metropolitana, segundo o Centro de Gerenciamento de Emergência paulista. O dilúvio começou no dia 23 de dezembro de 2009, o terceiro dia do verão, e durou até 7 de fevereiro. Além da massa úmida proveniente da Amazônia, outros fatores contribuíram para a formação de tempestades no estado.
- Normalmente, o solo absorve as primeiras chuvas da estação - lembra Franco Villela, também meteorologista do Inmet. - Mas, como tivemos inverno e primavera chuvosos, o solo já estava encharcado.
A mudança acelerou o processo de evaporação, também motivado pelas condições do Atlântico: a distribuição das massas d'água pelo planeta aumentou a temperatura do oceano. Mais evaporação aumenta a formação de nuvens - e, consequentemente, de chuvas.
A atuação do oceano é responsável, também, pela súbita alavancada das chuvas no Rio em março. Em 16 dias, o índice de pluviosidade chegou a 221,2 mm. A média histórica do mês é de 117 mm. Em resumo, chegamos ao dobro das precipitações esperadas em metade do tempo.
O aumento das chuvas no Sudeste motivou o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais a atualizar um de seus relatórios. Em 2008, o órgão publicou estudo mostrando o crescimento do número de dias em que a pluviosidade ultrapassa os 50 mm.
- Esta mudança começou há 50 anos, só que agora está mais intensa - reconhece o climatologista José Marengo. - As estações secas do ano passado foram repletas de chuvas. Vamos atualizar nossa pesquisa para entender essas variações recentes.
Segundo Marengo, o calor promete deixar marcas, embora mais tímidas, nas próximas estações cariocas:
- O inverno terá temperaturas superiores às normais.
Alexandre Silvestre
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